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Não se iluda. Tudo que puder ser automatizado, será

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Recentemente, li e refleti bastante sobre um relatório da Pew Research, chamado “AI, Robotics, and the Future of Jobs”. Resolvi escrever este artigo, não para ser alarmista ou profeta do caos, mas como uma simples provocação. As mudanças estão acontecendo e devemos enfrentá-las.

Para mim está claro que uma nova sociedade mundial está se delineando fortemente baseada na tecnologia da computação e Internet. Estas mudanças trarão impacto mais profundo que as demais ondas tecnológicas anteriores, como a revolução industrial. Além disso, sua amplitude e velocidade são únicas na história humana e muito provavelmente seus impactos sociais e econômicos serão duramente sentidos pela obsolescência rápida de muitas profissões.

Começamos 2016 ouvindo muito que a evolução exponencial da tecnologia vai substituir diversas funções exercidas por pessoas hoje. Tudo o que puder ser automatizado, será. O desafio é que esta mudança, por ser rápida e profunda, tem muitas chances de destruir empregos mais rapidamente que criar outros. Nas revoluções anteriores, funções que se tornaram obsoletas foram substituídas por outras, também executadas por pessoas, como  cocheiros por motoristas. Mas a automação vem, sucessivamente, eliminando trabalhos, e já vimos algumas funções desaparecerem por completo como ascensoristas, telefonistas, datilógrafos, etc.

A velocidade da revolução que se avizinha vai pegar outra camada da sociedade, até então imune à automação, como os “white collars” e, o que me parece mais preocupante é que o sistema educacional não está preparado para capacitar as pessoas para as novas funções que substituirão as que desaparecerem.

O impacto de veículos autônomos, dos assistentes digitais, e o avanço da Inteligência Artificial (IA) e da robótica, agrupados, têm potencial exponencial de destruir mais empregos que criar outros. O efeito desta revolução será diferente nas diversas economias do mundo. Países com baixo nível educacional, fortemente ancorados em trabalhos de baixa qualificação têm possibilidades bem maiores de sofrer mais. Países com alto nível educacional conseguem gerar novas funções mais rapidamente, porque estas novas funções tenderão a exigir uma capacitação maior que a média atual.

O Brasil não está em situação confortável. Em inovação estamos em 70◦ posição no Global Innovation Index de 2015. O analfabetismo funcional, mesmo com formados em curso superior, é altamente preocupante. Entre os estudantes do ensino superior, 38% não dominam habilidades básicas de leitura e escrita, segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), divulgado pelo Instituto Paulo Montenegro (IPM) e pela ONG Ação Educativa. O sinal não é mais amarelo. É  vermelho!

Um subproduto desta revolução poderá ser o aumento da desigualdade econômica e social entre países e entre os habitantes de cada nação. Cada emprego rotineiro está na mira da automação, não mais apenas nas linhas de produção, mas em áreas como contabilidade, direito, atendimento aos clientes, etc. Um escritório de advocacia, por exemplo, em vez de 99% de advogados (alguns seniores e a maioria juniores) será estruturado em poucos advogados especialistas seniores e muitos cientistas de dados escrevendo algoritmos que vão automatizar a maior parte do trabalho rotineiro, como a busca por documentos, pareceres, jurisprudências, e a redação de petições, etc. Provavelmente se parecerá mais como uma empresa de tecnologia atuando na área advocatícia. Na contabilidade, o mesmo.  A questão é: como formar cientistas de dados em número suficiente? E o que fazer com advogados e contadores que perderão espaço?

Na prática já vemos que software está pouco a pouco dominando o mundo. Por curiosidade, vejam o número de linhas de código de coisas diferentes como filmes, aviões, automóveis e empresas de tecnologia. Por exemplo, o filme Jurassic Park demandou dois milhões de LOC (Lines Of Code), um avião moderno como o Boeing 787 tem mais 15 milhões, o Facebook cerca de 60 milhões, um veículo autônomo mais de 100 milhões e todos os serviços do Google já acumulam mais de dois bilhões de LOC.

Vamos olhar um setor econômico como a indústria automotiva. No ecossistema desta indústria (fabricantes, concessionárias, motoristas, seguros, estacionamentos, etc.) os impactos serão significativos. A indústria em vez de fabricar um carro para cada habitante, fabricará um para dezenas, que serão atendidos em suas necessidades de locomoção por veículos sem motoristas. A indústria de seguros muda, pois a maior parte dos acidentes é causado por falha do motorista. Juntando automação com energias alternativas, como energia elétrica, um veículo elétrico autônomo, tem muito menos peças móveis, o que diminui em muito a necessidade de manutenção e de oficinas. Como o veículo não será mais vendido, mas alugado, um app substituirá as lojas de concessionárias.

Vai acontecer? Não sabemos. Se acontecer, será no curto prazo? Provavelmente não. Mas é um cenário que temos que discutir. A provocação é, “e quando acontecer?”.

O cenário pior seria termos uma elite altamente qualificada e uma grande parcela de empregos na base da pirâmide, como jardineiros e outros que demandam habilidade humanas. O meio, que hoje é a que chamamos classe média, está em risco de substituição.

A IA e a robótica podem fazer muita coisa, mas para mim fica claro que muitas funções são e deverão continuar sendo inerentemente humanas, como as que exigem criatividade, inovação, empatia e relacionamento emocional. Não visualizo, no curto ou no médio prazo (dez a quinze anos) a computação tendo capacidade de lidar com situações inesperadas, como nós aprimoramos ao longo de nossa evolução humana. No mais longo prazo é uma incógnita. Mas, com certeza, emoções serão 100% humanas.

O desafio que vejo é que estas novas funções demandam um sistema educacional preparado para capacitar pessoas neste novo contexto. As novas funções são aquelas que requerem mais conhecimento e raciocínio cognitivo. Demandam criatividade e inovação. Uma escola tradicional, não incentiva estes aspectos. Ainda vemos muito do modelo do século 19, alunos sentados ouvindo um professor e fazendo anotações. Limita criatividade. Sim, este é um desafio: repensar o modelo educacional.

Outra questão, que mais cedo ou mais tarde vai surgir, é se o emprego como conhecemos hoje vai continuar existindo. As relações entre empresas e empregados continuará como hoje? A carga horária continuará sendo de 40 horas em turnos fixos, como definido, por necessidade, na sociedade industrial?

Para lembrar como surgiram as típicas oito horas de trabalho, vamos voltar ao início da Revolução Industrial. No final do século 18, as fábricas funcionavam sem parar, em regime 24/7. Para tornar as coisas mais eficientes, as pessoas tinham que trabalhar mais. A norma era que as pessoas trabalhassem continuamente entre 10 e 16 horas.  Essa carga horária mostrou-se insustentável para saúde dos trabalhadores. Então Robert Owen, um reformista social inglês considerado um dos fundadores do socialismo, começou uma campanha para que essas pessoas não trabalhassem mais que 8 horas por dia. Seu slogan era "oito horas de trabalho, oito horas de lazer, oito horas de descanso." Não demorou muito para que a Ford implementasse, de fato, as oito horas diárias e mudasse os padrões. Portanto, as 8 horas por dia não foram fruto de análises e estudos científicos.  São, simplesmente, uma norma secular para tornar as fábricas mais eficientes. Mas, quando as fábricas se tornam automatizadas, com robôs e não humanos? Um robô pode trabalhar 24x7. E quando o trabalho é cada vez mais baseado em conhecimento e criatividade? Esta não tem hora para chegar. Um insight pode acontecer a qualquer momento e não apenas das 9h às 17h...

Com a automação, a necessidade de pessoas trabalhando em tempo integral para atender as demandas da sociedade diminuem substancialmente. Isso implica novas normas e práticas trabalhistas, novas relações entre empresa e pessoas, e vai afetar questões delicadas como aposentadorias e férias. Acredito que iremos caminhar na redefinição do conceito de trabalho e emprego.

Peguei algumas destas provocações e conversei com amigos, executivos de RH de algumas empresas de grande porte. As empresas e as áreas de RH estão realmente preparadas para enfrentar essas ameaças disruptivas? Como e onde buscar e reter talentos para ajudar a empresa no processo de transformação digital e de mudanças nos cenários de negócios que pululam por toda a parte?  O próprio RH irá se transformar. As tarefas rotineiras também serão substituídas por algoritmos, como em outros setores, e apenas poucos especialistas farão parte do time de RH de uma empresa. Um agravante no contexto atual no Brasil é a crise econômica e política que faz as empresas a serem pressionadas por resultados de curto prazo, cortando despesas e adotando estratégias de sobrevivência, enquanto processos de mudanças visam mais o longo prazo.

Pelo que observei, as áreas de RH ainda precisam evoluir muito. Muitas delas baseiam seus processos e práticas nos princípios das empresas da sociedade industrial, que são ainda o cerne de suas organizações. Diante deste cenário transformador, para questionar como será o novo RH, precisamos antes questionar como as empresas se adaptarão para sobreviver em um mundo novo e desconhecido? O atual modelo organizacional, hierárquico não mais atende a demanda de velocidade e transformações quase que cotidianas que o novo cenário exige. Novo modelo organizacional, surgem novas relações entre empresa e pessoas, e naturalmente, um novo RH.

Interessante que já começam a surgir nos EUA, startups focadas em RH, chamadas de HR Techs, com uso intenso de algoritmos. Vale a pena ler o artigo “A New Wave of HR Technology Is Disrupting the Market” para termos uma primeira ideia do potencial de disrupção que vai cair sobre as áreas de RH.

Temos que discutir o assunto. Matar o mensageiro não vai resolver o desafio. Acredito que a tecnologia não é fim, mas meio para chegarmos a um novo modelo social e econômico. Se positivo ou negativo, vai depender de nós.

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